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sábado, 25 de dezembro de 2010

Desprendimento

Após uma crise de hiperatividade cerebral que não me ocorria há quase dois anos, peguei-me rolando na cama, ao som do ventilador de teto e sem sono algum. Pensava nas músicas e compositores que formaram meu caráter ao longo de 27 anos - que começaram a ser vividos aos 16, foram suculentos e turbulentos a partir dos 20 e atingiram maior estabilidade a partir dos 25, com uma generosa dose de arrependimentos, frustrações, uma pitada de disciplina e o diploma de jornalismo.

Não que ter a estrutura básica do ser humano alicerceada por canções de rock seja algo louvável, mas dou muito valor a isso. Em algumas composições, me via nu, praticamente. E me questionava: "Isso não é genial? Alguém antever a sua vida? Uma situação?". Pois bem, não é. Mas é tão intrigante quanto instigante. Por isso, pouco antes de 1998, comecei a passar para o papel tudo que tinha vontade de debater. Falar, pura e simplesmente, nunca foi meu forte. Sentia - e ainda sinto - a necessidade de provocar ira ou riso, amor ou ódio, indignação ou simpatia.

Com a já extinta banda Seven Elevenz (Google It) fiz tudo isso e mais um pouco. Só que 90%, tudo em inglês. Mas por dois motivos: só conseguia me expressar na língua que meus compositores favoritos tinham como pátria; e não queria que qualquer pessoa entendesse o que eu tinha a dizer. Se achasse interessante descobrir sobre o que se tratava aquilo tudo, que procurasse saber - na minha opinião, coisas que vêm fácil demais costumam calejar o indivíduo de forma negativa. O que faltava falar, eu escrevia em português, no Acnoide - também já extinto. Iniciei um livro, um romance policial, sobre o sequestro perfeito, o qual abandonei no segundo mês, por puro desprendimento. Essa palavra, por sinal, é uma outra característica marcante de minha pessoa.

Entrei em uma faculdade de Propaganda e Marketing por desprendimento a qualquer pesquisa de área. Abandonei quando vi que minha vida seria preenchida por gráficos em torres, pizzas e afins. Comecei a cursar Jornalismo com o mesmo desprendimento. Porém, me identifiquei com o fato de poder ser o agente do resultado final, não apenas o espectador. Quase a abandonei em 2004 por dores de cotovelo e bebedeiras que duravam dias. Graças à solidariedade de um ex-professor de psicologia - Walter Poltronieri - não fui reprovado por faltas, pois já haviam duas Dependências me aguardando, sendo que a terceira seria fatal. E eu ia à faculdade em todos os dias em que recei as faltas, mas ficava no bar, com o maior desprendimento possível do meu salário e vida social, inclusive.

A profissão em si, tardou tanto a ser uma constante em minha vida que, quando se firmou, a ignorei. Por falta de oportunidades, experiência, indicações e, sim, desprendimento, ocupei boa parte de três anos com o conforto do desemprego bancado pelos pais, subempregos e música - que também nunca me rendeu mais do que alguns trocados instantâneos, transformados em bebidas e cigarros. Em 2008 consegui, finalmente, entrar na área, mesmo já estando formado há dois anos. Emprego aqui, emprego lá, calotes, crise mundial... e virei, apenas, redator. Meu desprendimento me auxilia muito em achar isso demais.

Agora, às portas de 2011, sabe-se lá para que e para quem, crio um novo blog. Talvez para extravazar um pouco da tensão da nova vida de pagador de contas e ocupar o pouco tempo ocioso com algo que não seja mais prejudicial do que algumas olheiras e aversão à luz do monitor. Ainda tem o fato de que, agora, sou casado. Não no papel e na igreja, ainda, mas nos termos práticos da coisa. Casa, comida, roupa lavada. Quem não quer? A Marcia quer e farei de tudo para suprir isso.

Mas, enfim, o Nota do Redator não será sobre a vida pessoal do Rafael Magalhães - muito menos do Koelho. Será sobre como os fatos externos afetam as vidas das pessoas ao meu redor e, não podendo evitar, a minha. Política, cultura, saúde, economia - tudo isso aparecerá por aqui, em doses homeopáticas, e com todo desprendimento que me é peculiar - e que é necessário para analisar tudo citado anteriormente.

Até logo!

ps.: se você desceu a barra de rolagem até aqui, sem ler nada disso que veio antes, provavelmente este blog não é para você.